Goiás é uma potência agropecuária. A estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento aponta uma produção de aproximadamente 33,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/2026. Ao mesmo tempo, os dados disponíveis sobre segurança alimentar mostram que 65 mil domicílios goianos ainda enfrentavam insegurança alimentar grave em 2024.
As duas informações abrangem períodos diferentes e medem realidades distintas, mas, quando colocadas lado a lado, expõem uma questão que deveria ocupar o centro do debate público: como um estado capaz de produzir alimentos em grande escala ainda convive com famílias que passam fome?
A resposta começa por uma distinção fundamental. Produzir muito não significa, necessariamente, garantir que todos tenham renda, acesso físico e condições para comprar alimentos regularmente.
Produção e acesso são problemas diferentes
O volume produzido no campo mede a força econômica e a capacidade produtiva do estado. A segurança alimentar, por outro lado, depende da realidade vivida dentro de cada domicílio.
A safra estimada pela Conab para Goiás inclui principalmente produtos inseridos em grandes cadeias comerciais, industriais e de exportação. Soja e milho, por exemplo, podem ser destinados à fabricação de óleo, ração animal, biocombustíveis, alimentos processados ou mercados externos.
Por isso, as 33 milhões de toneladas de grãos não representam 33 milhões de toneladas de alimentos disponíveis diretamente nas prateleiras dos supermercados goianos.
Entre a lavoura e o prato existem armazenamento, processamento, transporte, distribuição, impostos, margens comerciais e preços definidos por mercados nacionais e internacionais. Existe, sobretudo, a renda do consumidor.
Um alimento pode estar disponível no mercado e continuar inacessível para uma família que precisa escolher entre pagar o aluguel, comprar medicamentos, quitar a conta de energia ou abastecer a geladeira.
O que significa insegurança alimentar?
A insegurança alimentar não começa somente quando alguém fica um dia inteiro sem comer. A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, utilizada pelo IBGE, identifica diferentes graus de dificuldade dentro dos domicílios.
Na insegurança alimentar leve, surge a preocupação de que a comida acabe antes que a família tenha dinheiro para comprar mais. A qualidade e a variedade da alimentação também podem ser prejudicadas.
Na insegurança moderada, os adultos já enfrentam redução na quantidade de alimentos ou alterações importantes no padrão das refeições.
Na insegurança grave, a restrição alcança também crianças e adolescentes, quando existem menores de idade no domicílio. É o estágio em que a falta de comida e a experiência da fome podem fazer parte da rotina.
Em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros apresentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Isso correspondia a 18,9 milhões de domicílios e aproximadamente 54,7 milhões de pessoas.
O problema havia diminuído em comparação com 2023, mas continuava atingindo quase um em cada quatro lares do país.
Goiás melhorou, mas o problema não desapareceu
Os indicadores goianos também apresentaram melhora. Um recorte estadual divulgado com base na PNAD Contínua mostra que o número de domicílios com algum grau de insegurança alimentar caiu 24,6% em 2024.
A insegurança alimentar grave passou de 102 mil domicílios, em 2023, para 65 mil, em 2024 — redução de 36,3%. Mais de 2,3 milhões de domicílios goianos foram classificados em situação de segurança alimentar, conforme os dados estaduais derivados da pesquisa do IBGE.
A melhora é relevante e precisa ser reconhecida. Mas a PNAD mede a situação encontrada nos domicílios; isoladamente, ela não permite atribuir o resultado a um único programa ou governo.
Emprego, renda, transferência de benefícios, alimentação escolar, assistência social e comportamento dos preços podem influenciar o acesso à comida. Determinar quanto cada fator contribuiu exige avaliações específicas.
Também é importante não transformar a redução estatística em motivo para encerrar o debate. Sessenta e cinco mil domicílios em insegurança grave continuam representando uma quantidade expressiva de famílias expostas à privação alimentar.
Quando a média melhora, os grupos que permanecem vulneráveis podem se tornar menos visíveis.
A renda é a ponte entre a produção e o prato
A fome contemporânea raramente decorre apenas da ausência física de alimentos. Na maior parte das vezes, ela está relacionada à falta de renda suficiente e estável para adquiri-los.
Uma família pode morar perto de supermercados abastecidos e, ainda assim, não conseguir manter uma alimentação adequada durante todo o mês. A dificuldade aumenta quando o orçamento é consumido por despesas que não podem ser adiadas.
Trabalho informal, desemprego, endividamento, aluguel elevado, transporte, gás de cozinha, energia elétrica e medicamentos disputam espaço com a alimentação.
Quando a renda diminui, uma das primeiras reações costuma ser a substituição de carnes, frutas, verduras e laticínios por produtos mais baratos e de menor qualidade nutricional. Em seguida, aparecem a redução das porções, a retirada de refeições e, nos casos mais graves, a falta completa de comida.
Por isso, combater a insegurança alimentar envolve mais do que distribuir calorias. É necessário garantir acesso regular a uma alimentação suficiente, variada e nutricionalmente adequada.
A insegurança também existe no campo
À primeira vista, pode parecer contraditório encontrar insegurança alimentar em áreas rurais. Entretanto, viver perto da produção agropecuária não significa possuir terra, renda, água, equipamentos ou capacidade para produzir a própria alimentação.
Em 2024, a insegurança alimentar atingia 31,3% dos domicílios rurais brasileiros, acima dos 23,2% verificados nas áreas urbanas. A situação grave alcançava 4,6% dos domicílios rurais, contra 3% dos urbanos, segundo o IBGE.
Parte dessa diferença está relacionada à renda, à escolaridade, ao acesso a serviços, às condições de moradia e à estrutura produtiva das famílias. O próprio Ministério do Desenvolvimento Social aponta que a insegurança alimentar possui determinantes econômicos, territoriais e domiciliares.
Isso ajuda a compreender por que municípios com forte atividade agropecuária podem apresentar bolsões de pobreza. A riqueza produzida dentro de um território não é distribuída automaticamente entre todos os seus moradores.
A média estadual pode esconder desigualdades locais
Outro desafio é descobrir onde estão as famílias mais vulneráveis.
A PNAD Contínua fornece resultados confiáveis para o país e para as unidades da Federação, mas sua amostra não permite produzir diagnósticos precisos para cada município. O relatório do CadInsan, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento Social, destaca justamente essa limitação.
Isso significa que a média de Goiás pode esconder realidades muito diferentes entre bairros periféricos, assentamentos, comunidades rurais e pequenos municípios.
O monitoramento local precisa combinar informações do Cadastro Único, da assistência social, das escolas, das unidades de saúde e dos equipamentos de segurança alimentar. Sem esse cruzamento, o poder público corre o risco de agir apenas quando a fome já se transformou em emergência.
Como transformar abundância em segurança alimentar
A grande produção agropecuária é uma vantagem para Goiás, mas ela precisa ser acompanhada por políticas que aproximem a capacidade produtiva das necessidades da população.
Algumas medidas são especialmente importantes:
1. Proteger renda e emprego
Transferências sociais atendem situações imediatas, mas a segurança alimentar sustentável depende também de trabalho, renda estável e redução da vulnerabilidade econômica.
2. Fortalecer a alimentação escolar
Para muitas crianças, a refeição servida na escola representa parte essencial da alimentação diária. O Programa Nacional de Alimentação Escolar também pode estimular a economia local.
A legislação determina que pelo menos 30% dos recursos federais repassados pelo FNDE para a alimentação escolar sejam destinados à compra de produtos da agricultura familiar, conforme orientação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.
3. Ampliar as compras públicas
O Programa de Aquisição de Alimentos permite que o poder público compre alimentos da agricultura familiar e os destine a pessoas vulneráveis, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos e instituições socioassistenciais.
Essa estratégia une duas pontas: gera mercado para pequenos produtores e amplia o acesso de quem precisa.
4. Reduzir perdas e melhorar a distribuição
Parte dos alimentos é perdida durante a colheita, o armazenamento, o transporte e a comercialização. Bancos de alimentos e parcerias com centrais de abastecimento podem recuperar produtos próprios para consumo que perderam apenas o valor comercial.
5. Monitorar município por município
O estado precisa conhecer não apenas quantos domicílios enfrentam insegurança alimentar, mas onde eles estão, qual é o perfil das famílias e quais barreiras impedem o acesso à alimentação.
Sem diagnóstico territorial, políticas universais podem deixar de alcançar justamente os grupos mais vulneráveis.
O desafio não está apenas em produzir mais
Goiás não enfrenta falta de capacidade produtiva. O estado possui agricultura desenvolvida, infraestrutura agroindustrial e presença relevante nas cadeias nacionais de alimentos.
O desafio é transformar essa abundância econômica em acesso regular à comida dentro de todos os domicílios.
Produção, renda e segurança alimentar fazem parte do mesmo sistema, mas não são sinônimos. Uma safra volumosa pode fortalecer exportações, indústrias e arrecadação sem alterar imediatamente a realidade de quem vive com renda insuficiente.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas quanto Goiás consegue produzir. A questão decisiva é quanto dessa riqueza se converte em alimentação adequada, oportunidades e proteção para a população.
Enquanto milhares de famílias ainda precisarem reduzir refeições ou enfrentar a fome, a distância entre o campo produtivo e a mesa continuará sendo uma das contradições mais urgentes de Goiás.
Fonte: https://opiniaogoias.com.br/goias-como-pode-faltar-comida-em-um-estado-que-produz-tanto.html






